sábado, 14 de julho de 2012

Governo propõe redução salarial aos professores


Governo propõe redução salarial aos professores

O atual governo parece estar incomodado com a força que o movimento grevista dos docentes federais vem ganhando, tendo em vista as velhas técnicas anti-greve para desmobilizar a categoria e jogar a opinião pública contra esta. Contudo, conforme preceitua a etiqueta intelectual, não se deve engolir as informações sem antes mastigá-las bem. É isso que passaremos a fazer para tentar facilitar nossa digestão da proposta apresentada pelo governo na última sexta-feira 13. Primeiramente, a imprensa pareceu fingir não estar acontecendo nada muito importante para a sociedade. Passamos um mês de “descobertura” jornalística sobre o tema. Em seguida, o governo espalhou na mídia, principalmente na tv aberta, que nossa greve era precipitada, que poderíamos concluir o semestre, afinal faltava apenas um mês para isto. Começaram até os cochichos de ameaça de corte de ponto dos grevistas. O fato é que estas negociações vêm se arrastando desde 2009.
O passo seguinte foi o da última sexta-feira 13, após o anúncio de proposta definitiva do governo com relação à reestruturação da carreira e ao reajuste salarial dos docentes federais. A notícia que se alastra pelas mídias é que o benevolente governo concederá reajuste salarial de até 45% aos professores. Ora, porque continuar em greve então? Talvez achem que a capacidade de leitura e de matemática dos nossos professores anda tão ruim quanto o dos alunos despreparados e desmotivados que chegam em muitas universidades reféns de um ensino básico medíocre. Enganaram-se. A manchete que deveria estampar a capa de todos os jornais, após uma reflexão sobre os dados, é: Governo propõe redução salarial aos professores.
Vejamos no tira-teima, para utilizar um termo futebolístico bem brasileiro, o que realmente é proposto. Abaixo, apresento as tabelas relativas à remuneração atual e à proposta do governo. Tomei como exemplo apenas os cargos de dedicação exclusiva, defendida como prioritária pelas entidades sindicais para o melhor funcionamento do tripé ensino-pesquisa-extensão que sustenta nossas universidades públicas. E para não ficar muito confuso, analisemos apenas os mestres e doutores.


A interpretação do governo é que os professores terão aumento de até 45%. No entanto, se eu fosse o professor de matemática financeira do governo ele tiraria zero nesta questão. Cometeu um erro básico de comparar valores em períodos distintos. Ou será que foi deliberado? Será que realmente acredita que os R$100 de 2010 terão o mesmo valor de R$100 de 2015? Você lembra o que podia comprar com R$100 há cinco anos atrás? E hoje, consegue comprar os mesmos produtos? É claro que não. Vamos então enxergar qual é a verdadeira proposta governamental. Para isto, utilizando o IGP-M como nosso índice de mercado, transportemos os valores salariais de julho de 2010 para julho deste ano. Um cálculo que todo trabalhador deveria aprender a fazer mostra que o índice acumulado do IGP-M de julho de 2010 até junho de 2012 foi de 14,22%. Tudo bem, se não souberem podem usar um pouco que nova tecnologia e acessar o link no uol economia, não quero que percam nenhum detalhe http://economia.uol.com.br/iframefundos.jhtm?http://fundos.economia.uol.com.br/uol/calculadora-indices-inflacao/. Supondo, apenas por questões didáticas, que o último aumento seja dado em julho de 2015, não há muito esforço em aceitar uma projeção inflacionária para os próximos três anos de pelo menos 20%. Veja, aqui estou fazendo uma hipótese, e pela Lei de Murphy é provável que seja pior. Trazendo este valor também para o momento atual, julho de 2012, podemos comparar os dois valores.

Agora sim, podemos verificar os percentuais reais de aumento oferecidos pelo governo nessa proposta indecorosa de “reajuste” para baixo de salário. Isso para fixar apenas a questão salarial, mas a questão primária é a reestruturação da carreira que ficou muito distante da proposta do Andes-SN.
Como exercício de fixação, façamos cálculos análogos com o salário mínimo que é referência para a maioria da população brasileira. Primeiro, mostre que os atuais R$622 são realmente maiores do que os R$510 de julho de 2010. Agora a pergunta capciosa, se o governo anunciasse hoje que o salário mínimo sofreria aumentos consecutivos em três parcelas chegando a R$700 em julho de 2015, você aceitaria? Resolvam e tragam para a próxima aula. Por hoje é só.
Prof. Wagner Ferreira Santos
Departamento de Matemática
Universidade Federal de Sergipe
Campus Prof. Alberto Carvalho
Itabaiana-SE

6 comentários:

Rosilene Horta Tavares disse...

Prof Wagner, muito interessante seu texto e análise. Acabo de enviar para cerca de 2mil professores em MG.
Obrigada!
Rosilene

Rosilene Horta Tavares disse...

Legal

Moderador BI disse...

Ótimo, enviei também para os colegas da UNIFAL-MG.

Anônimo disse...

Que aula! Sou coordenadora pedagógica, enviei para todas as instituições escolares do meu município (cambuci/rj)

Renato Sfolia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Renato Sfolia disse...

Bom dia prof Wagner. Estou solicitando autorização para reproduzir este post do senhor "Governo propõe redução salarial aos professores". Obrigado!